quinta-feira, 30 de março de 2017

Abd al-Rahman III an-Nasir li-din Allah ibn Mamad al-Qurtubi khalifa al-Qurtubi

Califa árabe nascido provavelmente em Córdoba, na Espanha muçulmana, fundador do califado omíada de Córdoba (929-961), independente do califado de Bagdá, e um hábil estrategista que conseguiu submeter a seu poder toda a Espanha muçulmana, além de deter o avanço dos reinos cristãos. A Espanha muçulmana era uma província independente desde o estabelecimento do poder abássida. Quando os Abássidas capturaram Damasco, um dos príncipes omíadas, Abd al-Rahman I, escapou e fez uma longa jornada para Espanha, onde fundou um reino omíada. Com a ajuda dos berberes e dos árabes da Síria, apoderou-se de Córdoba (756) e dominou a maior parte do país, iniciando assim a era dourada do Islam na Espanha. Córdoba foi fundada como capital e em breve se tornou a maior cidade não só pela sua população mas também do ponto de vista cultural e da vida intelectual. Os Omíadas reinaram por mais de dois séculos até que, enfraquecidos, foram substituídos por governantes locais. Ao suceder ao avô, o emir Abd Allah, por vontade deste, no cargo de emir de Córdoba, com apenas 21 anos, o III recebeu um reino fragmentado em províncias com alto grau de autonomia. O emirado se achava ameaçado também pelos poderosos reinos cristãos, especialmente o de Leão, e pelo expansionismo do califado fatímida egípcio. Ao iniciar seu reinado (912), tomou uma iniciativa audaciosa. Exigiu a submissão absoluta de todos os súditos, em troca do perdão para os que acatassem sua soberania, e ameaçou os rebeldes com severos castigos. Em poucos anos, conseguiu o domínio de quase todo o território do emirado andaluz, a Espanha muçulmana, embora tenham persistido focos de resistência em algumas províncias, como o que foi liderado por Omar ibn Hafsun, em Granada e Jaén. Ibn Hafsun morreu (917), mas sua fortaleza de Bobastro ainda permaneceu independente por mais de dez anos. Conquistou Pamplona (924) e proclamou-se califa (929), sucessor do profeta e príncipe dos crentes, o que supunha a independência religiosa de al-Andalus, ou seja, título que aliava a autoridade política à religiosa. Durante os anos seguintes as conquistas se sucederam: Badajoz (930), Ceuta (931) e Toledo (933). A conquista de Toledo consolidou o poder cordobês (933). Durante seu reinado, o califado conquistou um extraordinário poder político e militar, comparável ao dos impérios germânico e bizantino. A pujança do califado foi pouco afetada pela derrota sofrida em Simancas (939), para Ramiro II de Leão. Córdoba viveu seu período de maior esplendor e prevaleceu sobre os reinados cristãos.. A cidade foi embelezada com a ampliação da mesquita e a construção do alcáçar, e iniciou a construção da cidade-palácio de Medinat al-Zahara, a noroeste de Córdoba (936). Protegeu a produção têxtil, investiu na agricultura e buscou abrir novos mercados. Criou a escola de medicina mais antiga de Europa e favoreceu o estudo da astronomía das matemáticas. Quando morreu deixou como herança à Espanha muçulmana uma economia próspera, intensa atividade cultural e uma comunidade fraterna, na qual conviviam mouros, judeus e cristãos. Na evolução de al-Andalus, a denominação árabe da Espanha muçulmana, é possível distinguir-se três períodos: o emirado dependente (714-756), no qual o território foi convertido em uma província do Islã sob a soberania dos califas omíadas de Damasco; o emirado independente (756-929), constituído quando Abd al-Rahman I, membro da destronada dinastia omíada chegou ao poder e deixou de obedecer a Bagdá e ao califado abássida; e, por último, o califado omíada, iniciado quando o então emir se proclamou califa (929), o que representou a independência religiosa de al-Andalus. Posteriormente, as diferenças entre os grupos étnicos provocaram a fragmentação desse domínio em numerosos reinos de taifas na metade do século XI.

Biografia retirada de NetSaber

terça-feira, 28 de março de 2017

Abulqasim Mohamed ibn Abdala ibn Abd al-Mutalib ibn Hashim, Maomé ou Mohammed ou Mafoma ou Mafamede

(Profeta árabe)
570-632

Profeta árabe nascido em Meca, na atual Arábia Saudita e na época, era um importante e próspero centro comercial e religioso, cujo nome próprio é derivado do verbo hâmada e que significa digno de louvor, fundador da religião muçulmana e do império árabe. Pertencia ao clã dos Hashim, de Banu Hashim, um dos ramos da tribo dos coraixitas (Qoreish, Quraish ou Qoraish), guardiã da Caaba, templo nacional do povo árabe que abrigava os ídolos de todas as tribos da península e os deuses da religião de todos os chefes de caravana que ali passavam, mais de 360 deuses. Órfão muito cedo, foi criado primeiramente pelo avô paterno, Abd al-Mutalib, e mais tarde pelo tio, Abu Talib, coletor de impostos e mercador, que o iniciou nas artes do comércio. Preocupado com a idéia de restabelecer a religião monoteísta de Abraão, Ibrahim em árabe, teve na religião sua área de interesse privilegiado, tornando-se um político talentoso, chefe militar e legislador. Aos 25 anos, já com a reputação de comerciante honesto e bem-sucedido, casou-se com a rica viúva Cadidja, 15 anos mais velha do que ele. O matrimônio durou até a morte de Cadidja (617), num castelo pertencente a Abu Talib, que morreria dois anos após, onde o profeta estava refugiado. Segundo a tradição, aos 40 anos recebeu a missão de pregar as revelações trazidas de Deus pelo arcanjo Gabriel. As revelações teriam se repetido durante toda a vida do profeta e logo começaram a ser registradas por escrito e com elas compôs o Alcorão ou Corão (Al no árabe equivale ao nosso artigo o). Seu monoteísmo chocava-se com as crenças tradicionais das tribos semitas e foi obrigado a fugir para Iatribe (622), atual Medina ou Madinat an Nabi, isto é, Cidade do Profeta, onde as tribos árabes viviam em permanente tensão entre si e com os judeus. Estabeleceu a paz entre as tribos árabes e com as comunidades judaicas e começou uma luta contra Meca pelo controle das rotas comerciais. Conquistou Meca (630) e, de volta a Medina, morreu dois anos depois, sem haver nomeado um sucessor, porém deixando uma comunidade espiritualmente unida e politicamente organizada em torno aos preceitos do Corão, cuja edição definitiva seria publicada alguns anos após (650). A nova religião foi chamada islamismo ou Islã, que significa submissão à vontade divina, e seus adeptos, muçulmanos, os que se submeteram.

Notícia retirada daqui

domingo, 26 de março de 2017

Biografia de São Francisco de Assis

sexta-feira, 24 de março de 2017

Adam Smith

Adam Smith (1723-1790) foi economista escocês. Considerado o pai da economia moderna. O mais importante teórico do liberalismo econômico do século XVIII. Autor da obra "Uma Investigação Sobre a Natureza e a Causa da Riqueza das Nações", que é referência para os economistas. Adam Smith (1723-1790) nasceu em Kirkcaldy, Escócia, e foi batizado no dia 5 de junho de 1723. Filho do advogado Adam Smith e de Margaret Douglas, ficou órfão aos dois anos de idade. Fez o curso secundário no Burgh School of Kirkcaldy. Estudou Filosoia em Glasgow, na Universidade de Edimburgo e em 1740, ingressou no Balliol College da Universidade de Oxford. Radicado em Edimburgo, em 1748, deu cursos sobre ética e economia até ser nomeado professor de Lógica, na Universidade de Glasgow, em 1751. Assumiu a cátedra de filosofia Moral, em 1752.
Publicou seu principal tratado, "The Theory of Moral Sentiments" (1759). Como tutor do duque de Buccleuch, viajou pela França e Suíça entre 1763 e 1766, onde teve contato com os fisiocratas, como Voltaire e François Quesnay, fundador da fisiocracia. De volta à Escócia abandonou a atividade acadêmica e alternou sua residência entre Kirkcaldy e Londres, e publicou sua obra principal, "An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations" (1776), obra que teve importância fundamental para o nascimento da economia política liberal e para o progresso de toda a teoria econômica.
Pregava a não intervenção do Estado na economia e um Estado limitado às funções de guardião da segurança pública, mantenedor da ordem e garantia da propriedade privada. Adam Smith defendia a liberdade contratual, pela qual patrões e empregados seriam livres para negociar os contratos de trabalho. Foi nomeado inspetor de alfândega em Edimburgo (1777), onde passou o resto da vida, e encerrou sua carreira profissional como reitor da Universidade de Glasgow. Postumamente ainda foi publicado "Essays on Philosophical Subjects" (1795). Adam Smith faleceu em Edimburgo, Escócia, no dia 17 de julho de 1790.

Biografia retirada de e-biografias

quarta-feira, 22 de março de 2017

Emily Greene Balch

Economista, socióloga e feminista, prémio Nobel da Paz, nasceu no Massachusetts (EUA) e frequentou uma escola quaker, orientação religiosa da família. Estudou economia e literatura. Obteve uma bolsa de estudo no estrangeiro, bolsa jamais atribuída a uma aluna. Emily era demasiado dotada e de forte carácter. Viajou para Paris onde se dedicou a estudar a pobreza e medidas sociais. Regressa aos EUA e com Jane Adam fundou casas onde as trabalhadoras das fábricas de tabaco e manufactura de sacas podiam ter o seu espaço, depois dos dias de árduo trabalho, com horários prolongados. Em 1896 começou a preparar o doutoramento, enquanto ensinava economia e sociologia. Foi docente no Wellesley College. Paralelamente Emily desenvolveu intensa actividade como pacifista e lutou contra as leis discriminatórias para com os imigrantes. Foi delegada ao Congresso Feminino Internacional de Haia, em 1915 e participou nos Congressos da Escandinávia e Rússia. Amiga de Jane Addams esteve na origem da criação da Liga Feminina Internacional para a Paz e a Liberdade tendo chegado a Presidente. Fundou o jornal A Nação. Visitou diversos países, esteve nos Balcãs, Viena e Praga. Em 1946 recebeu, com Elisabeth Morrow, o Prémio Nobel da Paz

Biografia retirada de O Leme

sexta-feira, 17 de março de 2017

Adelaide Câmara

Adelaide Augusta Câmara foi uma das mais devotadas figuras femininas do Espiritismo no Brasil, bem conhecida pelo seu pseudônimo de Aura Celeste. 

Encarnou na cidade de Natal, Estado do Rio Grande do Norte, em 11 de janeiro de 1874, e desencarnou na cidade do Rio de Janeiro, em 24 de outubro de 1944. 

Aura Celeste veio para a antiga Capital Federal em janeiro de 1896, graças ao auxílio de alguns militantes do Protestantismo, a cuja religião pertencia, os quais lhe propiciaram a oportunidade de lecionar no Colégio Ram Williams, o que fez com muita proficiência, durante algum tempo, até que organizou em sua própria residência, um curso primário, onde muitos homens ilustres do meio político e social brasileiro aprenderam com ela as primeiras letras. 

Foi nesse período de sua vida, no ano de 1898, que começou a sentir as primeiras manifestações de suas faculdades mediúnicas. Nessa época, o grande Bezerra de Menezes dirigia os destinos da Federação Espírita Brasileira, revestido daquela auréola de prestígio e de respeito que crentes e descrentes lhe davam, e o Espiritismo era o assunto de todas as conversas, não só pelos fenômenos e curas mediúnicas, como pela propaganda falada, pelos livros e pela imprensa. 

Sob a sábia orientação de Bezerra de Menezes começou a sua notável carreira mediúnica como psicografa, no Centro Espírita Ismael. O grande apóstolo do Espiritismo brasileiro, pela sua conhecida clarividência, prognosticou, certa vez, que Adelaide Câmara, com as prodigiosas faculdades de que era dotada, um dia assombraria crentes e descrentes. E essa profecia de Bezerra não se fez esperar, pois em breve Adelaide Câmara, como médium auditiva, começou a trabalhar na propagação da Doutrina, fazendo conferências e receitando, com tal acerto e exatidão, que o seu nome se irradiou por todo o País. 

Com a desencarnação do inolvidável mestre, doutor Bezerra de Menezes, em 1900, Adelaide Câmara aproximou-se do grande seareiro que foi Inácio Bittencourt e, nas sessões do Círculo Espírita “Cáritas”, passou a emprestar o seu concurso magnífico como médium e como propagandista de primeira grandeza. 

Contraindo núpcias em 1906, os afazeres do lar, e a educação dos filhos mais tarde, obrigaram-na a afastar-se da propaganda ativa nos Centros, mas, nem por isso, ficou inativa. Nas horas de lazer, entrava em confabulação com os guias espirituais, e pôde receber e produzir páginas admiráveis, que foram dadas à publicidade na obra “Do Além”, em 21 fascículos, e no livro “Orvalho do Céu”. 

Foi aí que adotou o pseudônimo de AURA CELESTE, nome com que ficou conhecida no Brasil inteiro. 

Em 1920, retorna à tribuna e aos trabalhos mediúnicos, com tal vigor e entusiasmo, que o seu organismo de compleição franzina ressentiu-se um pouco, mas, nem por isso, deixou ela de cumprir com os seus deveres. O Dr. Joaquim Murtinho era o médico espiritual que, por seu intermédio, começou a trabalhar na cura dos enfermos e necessitados, diagnosticando e curando a todos quantos lhe batiam à porta, desenvolvendo-lhe, espontaneamente, diversas faculdades mediúnicas nesse período. 

Além das mediunidades de incorporação, audição, vidência, psicográfica, curadora, intuitiva, possuía Adelaide Câmara, ainda, a extraordinária faculdade da bilocação. Muitas curas operou em diferentes lugares do Brasil, a eles se transportando em “desdobramento fluídico”, sendo visível o seu corpo perispirítico, como aconteceu em Juiz de Fora e Corumbá (provadamente constatado), por enfermos que, sob os seus cuidados, a viram aplicar-lhes “passes”. 

Poetisa, conferencista, contista, e educadora sobretudo, deixou excelentes obras lítero-doutrinárias, em prosa e verso, assinando-os geralmente com o seu pseudônimo. É assim que deu a público “Vozes d”Alma”, versos; “Sentimentais”, versos; “Aspectos da Alma”, contos; “Palavras Espíritas”, palestras; “Rumo à Verdade” e “Luz do Alto”. Esparsos em revistas e jornais espíritas, há muitas poesias e artigos doutrinários de sua autoria. 

O grande jornalista e literato Leal de Souza, referiu-se a Adelaide Câmara como “a grande Musa moderna, a Musa espiritualista”. 

Em 1924, teve as suas vistas voltadas para o campo da assistência às crianças órfãs e à velhice desamparada. Centralizou todos os seus esforços no propósito de materializar esse antigo anseio de sua alma. Pouco, entretanto, pôde fazer em quase três anos de lutas. Aconteceu, então, que um confrade, João Carlos de Carvalho, estava angariando donativos e meios para a fundação de uma instituição dessa natureza, e, um dia, faz-lhe entrega da lista de donativos a fim de que Adelaide Câmara arranjasse novos óbolos para tão humanitário fim. Dias depois, João Carvalho desencarna, e ela fica de posse da lista e do dinheiro arrecadado. 

Passados alguns meses, o Sr. Lopes, proprietário da Casa Lopes, que andava estudando a Doutrina, mostrou-se interessado na organização de uma instituição de amparo e assistência aos órfãos e Adelaide lhe informa possuir uma lista com alguns donativos para esse fim. A idéia foi recebida com entusiasmo e logo concretizada. Alugaram uma casa em Botafogo e aí foi instalado, no dia 13 de março de 1927, o Asilo Espírita “João Evangelista”, sendo ela a sua primeira diretora. Compareceu a essa festiva inauguração o doutor Guillon Ribeiro, então 2o. secretário da Federação Espírita Brasileira e representante desta naquela solenidade. Adelaide Câmara, em breves palavras, exprimiu o júbilo de sua alma, afirmando realizado o ideal de toda a sua existência – “ser mãe de órfãos, graça do céu que não trocaria por todo o ouro e todas as grandezas do mundo”. 

Dedicou, daí por diante, todo o seu tempo a essa grandiosa obra de caridade, emprestando-lhe as luzes do seu saber e de sua bondade até o dia em que serenamente entregou a alma a Deus. 

Com extremosa dedicação, trabalhou Aura Celeste em várias sociedades espíritas beneficentes da cidade do Rio de Janeiro, dando a todas elas o melhor de suas energias e de sua inteligência. 

No Asilo Espírita “João Evangelista”, porém, foi onde realizou sua tarefa máxima, não só como competente educadora, mas também como hábil orientadora de inumeráveis jovens que ali receberam, como ainda recebem, instrução intelectual e educação moral.

A vida e a obra de Adelaide Câmara foram uma escada de luz, uma afirmação de fé e humildade, e um perene testemunho de amor. Era a grande educadora que ensinava educando e educava ensinando, pelo exemplo. 

Médium sem vaidades, sincera e de honestidade a toda prova, praticava a mediunidade como verdadeiro sacerdócio. 

Dotada de sólida cultura teria, se quisesse, conquistado fama no mundo das letras. Poetisa de vastos recursos, oradora convincente e natural, senhora de estilo vigoroso e de fulgurante imaginação, tudo deu e tudo fez, com o cabedal que possuía, para o bom nome e o engrandecimento da Doutrina Espírita. 

O Asilo Espírita “João Evangelista”, no Rio de Janeiro, aí está ainda, em sede própria, atestando a obra e o devotamento à causa do bem daquela nobre mulher que se chamou Adelaide Augusta Câmara. 


Informação retirada daqui

terça-feira, 14 de março de 2017

Adélia Rueff

Nascida em Pinhal, Estado de São Paulo, no dia 5 de Junho de 1868 e desencarnada na mesma cidade, no dia 2 de Fevereiro de 1953, com 84 anos de idade.

Desde o seu surgimento na Terra, no ano de 1857, o Espiritismo enfrentou tenaz resistência por parte da religião majoritária do Brasil. Entretanto, na década de 1930, essa pressão acentuou- se de maneira inusitada, fazendo- se sentir em toda a sua intensidade.

Na cidade de Pinhal, o clima não era diferente. Entretanto, como Deus situa em cada cidade um Espírito que desenvolve tarefas pioneiras e santificantes, aquele núcleo populacional do Estado de São Paulo, não poderia constituir exceção, por isso ali reencarnou o Espírito missionário de Adélia Rueff, mais conhecida por "tia Adélia", que teve a oportunidade ímpar de desenvolver santificante trabalho em favor do esclarecimento dos seus semelhantes, alicerçada na recomendação de Jesus do "Amai- vos uns aos outros".

A fim de propiciar aos nossos leitores uma apagada súmula biográfica dessa grande vida, passamos a transcrever um substancioso trabalho elaborado pelo confrade João Batista Laurito, atual presidente da Federação Espírita do Estado de São Paulo, que teve a oportunidade feliz de com ela conviver, locupletando- se com os frutos sazonados que ela tão bem sabia doar aos que usufruíram de sua benfazeja orientação espiritual.

"Foi exatamente em 1936 que tive os meus olhos abertos para as claridades fulgurantes da Doutrina Consoladora. Embora nascido em berço espírita, foi somente nesse ano que, indo residir em Pinhal, a fim de estudar na "Escola Agrícola", conheci o "Centro Espírita Estrela da Caridade", brilhante fanel de luzes na Região Mojiana, centro de irradiação de caridade e amor a todos os que tinham a oportunidade de freqüentá-lo.

Essa Casa foi fundada em 11 de janeiro de 1911 e, desde o dia de sua fundação até 1950, ininterruptamente, foi essa célula de fraternidade, sábia e amorosamente presidida por sua fundadora ADÉLIA RUEFF (Tia Adélia), assim chamada, porque solteira, abrigou em seu lar enorme contingente de sobrinhos de outras cidades, que na idade própria buscavam Pinhal, para aculturamento escolar, fato que durou muitos anos. E esses sobrinhos eram tantos, que generalizaram entre outras pessoas, a alcunha "Tia Adélia".

O Dr. Francisco Silviano de Almeida Brandão, por ocasião de sua colação de grau como médico, houvera feito uma promessa no final do século XIX que se tudo transcorresse bem por ocasião de sua formatura, abriria um Centro Espírita, pois já nessa época professava a crença reencarnacionista. Mas como as coisas na ocasião eram, além de difíceis, o espírito popular muito antagônico, foi postergando a idéia até desencarnar. No mundo espiritual, viu a necessidade do cumprimento da promessa, e surgindo a primeira oportunidade, comunicou- se com Tia Adélia, pedindo- lhe que cumprisse por ele a promessa. Assim nasceu o "Centro Espírita Estrela da Caridade".

Durante cinco anos, moramos com ela. E às terças e sábados, às 19:30 horas, lá estávamos no "Estrela da Caridade", e a sua voz, firme, inflexível, embora mansa e doce, ainda ecoa em nossos ouvidos, quando iniciava a sessão declamando: "Deus nosso Pai, que sois todo poder e bondade... e ao encerrar: Sublime estrela, farol das imortais falanges...

Nasceu no dia 5 de junho de 1868, ali mesmo em Pinhal, predestinada a somente servir, não casou. Durante toda a sua fértil existência, amou e deu tanto de si aos outros, que formou em seu derredor uma auréola de inenarrável admiração. Médium de exuberantes proporções bastava a imposição de suas compassivas mãos, para aliviar instantaneamente as pessoas, que a procuravam com tanta avidez, sem lhe permitir sossego ou descanso.

Certa feita ela viajou. E nós, que aos domingos aproveitávamos para dormir até bem mais tarde, sem nenhuma alegria ou boa vontade, atendemos 17 pessoas que a procuraram para tomar passes, das 8 às 12 horas. Uma ocasião, um confrade de Jacutinga -- Minas Gerais --, viajou, a pé, 26 quilômetros para presenteá-la com um saquinho de feijão verde, numa atitude de comovedora gratidão.

A mesa diretora dos trabalhos era formada. Na cabeceira principal sentava Tia Adélia, sob uma iluminada Estrela de 1âmpadas coloridas, símbolo do Centro. Na outra cabeceira, o Vice-Presidente, Zé Café. As laterais para os médiuns, Dona Ordalha, Tereza, Idalina, Dona Eugênia, e a extraordinária Dona Adélia Neto, que quando recebia o Guia Espiritual do Centro "Irmão Silviano", se colocava de pé, abria os olhos, e de uma criatura tímida e simples, embora bela, se transformava num tribuno imponente e erudito. Pudera, médium inconsciente dando passividade ao Espírito Dr. Francisco Silviano de Almeida Brandão, médico, Presidente do Estado de Minas Gerais. Na porta de entrada, controlando com vigilância e severidade a admissão dos freqüentadores, a Mariana e a Rosa Domiciano, zeladoras do grupo. 

Viajando em charretes, excepcionalmente em automóveis e quase sempre a pé, lá ia Tia Adélia, à periferia Pinhalense e aos sítios vizinhos, cumprindo a predestinação de sua encarnação como lídima missionária do Cristo: atendendo aos aflitos, curando os obsediados, levantando os caídos, vestindo as viúvas, alimentando as crianças e amparando os velhos. 

Que criatura extraordinária! Doce, mansa, boa. Jamais a vimos encolerizada, jamais a vimos levantar a voz. À medida que envelhecia, fruto de dois acidentes graves, se curvava, se encarquilhava, tornando- se menor. Fatos que nunca a fizeram perder a paciência. Olhos vivos, argutos, mente clara, pensamento limpo, conselheira oficial de quase toda a população pinhalense. Fato que lhe proporcionou tributo de grande admiração, respeito e afeição por seus contemporâneos. 

Descrever fatos do desenvolvimento espírita de "Tia Adélia" no campo da benemerência, seria tarefa que preencheria um enorme livro. 

Médium de determinação na crença do trabalho doutrinário, deixava sempre para segundo plano a necessidade de repouso físico, aproveitando todo tempo disponível no atendimento dos mais necessitados do caminho. 

Por ocasião das festividades comemorativas no "Estrela da Caridade", Tia Adélia, com muito carinho e inteligência, preparava seus discursos e em pé, inflamada, erecta, impressionava os presentes ao transmitir seus inequívocos conhecimentos a respeito da Doutrina. Empolgava tanto as suas palestras, que os menos avisados, desconhecedores das virtudes mediúnicas, não conseguiam reconhecê-la na oradora. 

Os freqüentadores do "Centro Espírita Estrela da Caridade", chegavam a venerar a tal ponto o Guia Espiritual do Grupo, Irmão Silviano, que narraremos um acontecimento inusitado para o conhecimento dos leitores: 

Em determinada ocasião, brincávamos com um grupo de crianças, quando uma garota nos contou algo muito sério. Exigimos dela que jurasse se aquilo era verdade. E ela, jurou por Deus que tudo quanto dissera representava a expressão da verdade. Não aceitamos o juramento e retrucamos: jurar por Deus não interessa; você jura pelo "Irmão Silviano"? -- Era exigir demais dela, que não teve coragem de ratificar o juramento, pois para jurar em nome do "Irmão Silviano" só se fosse inabalável verdade.

Informação retirada daqui

sábado, 11 de março de 2017

Papa Dâmaso I


Nasceu em Guimarães ou Idanha-a-Velha em c. 305; 
morreu em Roma em 384.

Filho de António e Laurentina, pensa-se que nasceu na Península Ibérica porque o Liber Pontificalis (O Livro dos Papas), a história dos Sumo Pontífices, que começa com São Pedro e que na sua forma primitiva ia até ao Papa Estevão V (885-891), afirma que «Damasus, natione hispanus, ex patre Antonio ...», mas a frase pode só significar que a família, ou o pai, era oriunda dessa região o que não implica que tivesse nascido na Península. Muitas localidades ibéricas afirmam ser o berço do seu nascimento, havendo quem defenda que, para além das duas povoações já citadas, possa ter nascido em Arguelaguer, Madrid ou Tarragona. 

Foi André de Resende que no seu Breviário de Évora de 1548 afirmou que o «... B. Damasus ... patria Vimaranensis ex Bracarensi Provincia», isto é, que São Dâmaso tinha nascido em Guimarães, no  Arcebispado de Braga.

A verdade, é que Dâmaso aparece ainda criança em Roma, onde o pai era Secretário de São Lourença, Mártir, um dos sete diáconos da Igreja de Roma, martirizado durante a perseguição do Imperador Valeriano realizada em 258. A sua vida até ser eleito Papa, é muito resumida afirmando-se unicamente que era dotado de grande cultura e santidade.

Foi eleito Papa em 1 de Outubro de 366, por larga maioria, mas alguns seguidores do anterior Papa Libério, próximos do Arianismo, consagraram o diácono Ursino, criando um Antipapa para tentar depor Dâmaso I.

Fonte:
The Catholic Encyclopedia, Volume IV
Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura - Verbo, Lisboa, Verbo, 1967, vol. 6, cols. 742-743

quarta-feira, 8 de março de 2017

João Batista e Salomé

"Salomé - a sua luxúria um abismo. A sua perversidade um oceano". Salomé foi, depois de Eva, considerada a mulher mais malvada da história judaico-cristã. Há poucas figuras femininas no Antigo Testamento que tenham merecido por parte de escritores, autores de teatro, gravadores, pintores e compositores musicais a atenção que mereceu a jovem Salomé, filha de Herodias e sobrinha do tetrarca da Galileia - Herodes Antipas.
À partida, pela sua beleza e sendo de estirpe real, Salomé teria nascido para fazer feliz qualquer mortal, mas o capricho de exigir a cabeça de João Baptista, transformou-a numa proscrita: a jovem que, sob um ar angelical, é possuidora da pior das perfídias, por usar o dom da sedução e o erotismo para conseguir os seus intentos. A Natureza, rezam os historiadores e a lenda, dera-lhe dons magníficos - um corpo escultural, cabelos negros sedosos, olhos de pantera, boca, braços e pernas perfeitos, como os de uma Vénus - e, foi todos estes atributos que usou para mandar executar João Baptista.
Herodes Antipas, nascido no ano 10 a. C., era filho de Herodes o Grande. Calígula, Imperador romano, dera-lhe o governo da Galileia e de Pereia. Herodes Antipas repudiara a mulher legítima e passara a viver com Herodias (ou Herodíades) sua cunhada. Pior, decidiram mesmo casar-se, ignorando a lei que o interditava. O incesto foi e é, desde tempos imemoriais e em muitíssimas culturas, em diversas partes do mundo, condenado como crime grave. Herodes e Herodias viviam um idílio só interrompido pela voz de um homem estranho, de nome João, que, vindo do deserto, parecia disposto a perturbar o tetrarca e a recente mulher.  Esse homem que vivia numa pobreza assumida, como forma de despojamento dos bens terrenos, e se vestia apenas com uma pele de camelo, apertada com um cinto, passara muitos anos no deserto, que percorrera alimentando-se apenas de água da chuva, frutos silvestres, gafanhotos e mel, como conta a tradição. João, sem qualquer poder visível, tinha uma imensa multidão que o seguia, que ouvia as suas palavras e não deixava de clamar contra Herodes e Herodias, pelo modo desregrado em que viviam. Se Herodes não admitia ser importunado por João, a mulher ia mais longe: odiava João Baptista e esperava a melhor ocasião para o fazer desaparecer. 
A bela Salomé, filha de Herodias, que fora viver com a mãe para o novo palácio, depois de o pai ter sido preso injustamente pelo irmão, passeava, cheia de mistério, com vestes finas, deixando tudo e todos envoltos no poder da sua sensualidade, a que não ficavam alheios os olhos do tio, dos guardas e de todos os servidores do palácio. A beleza tem um poder imenso.
Salomé era jovem, certamente virgem e o prazer de ser desejada, de momento, satisfazia-a. Mas Salomé não tem apenas uma história. Flaubert, Oscar Wilde, Mallarmé e Eugénio de Castro, para só referirmos alguns, vestiram e despiram Salomé a seu bel-prazer. Deram-lhe e tiraram-lhe ingenuidade e candura ou carregaram-na com paixões mórbidas e a mais repugnante perfídia, conforme a veia criativa os inspirou.
É certo que esta bela jovem da Galileia teve existência real. Para lá dos mitos criados nos 20 séculos passados sobre a sua morte, Salomé mantém-se uma figura histórica inesquecível e para sempre ligada ao nome de João Baptista. No Evangelho de Mateus, aparece apenas com uma simples referência: "Ela dança e agrada a Herodes e aos convivas." O historiador hebreu Flávio Josefo também se refere a ela, dizendo: Aquela que pediu, por conselho da mãe, Herodias, a cabeça de S. João Baptista, por ter dançado airosamente" (Tesouro Bíblico ou Dicionário Histórico - do Antigo e Novo Testamento, p. 263, Lisboa, 1785). 
João era conhecido por João Baptista, porque baptizava nas águas do Jordão todos aqueles que acreditavam que um dia a lei dos homens seria alterada com a chegada de um "messias". Como sabemos, foi S. João quem baptizou Cristo, quando este iniciou a sua vida de pregador. João Baptista é uma das figuras mais respeitadas da história judaico-cristã e a sua vida é também admirada pelos muçulmanos. Tem um culto assinalável na Turquia, bem como em várias zonas do Oriente. Envolve-o uma aura de homem bom, num sentido universal e muito mais vasto que o da santidade da Igreja Católica.
João era filho de Zacarias e Isabel, primo de Jesus de Nazaré, que ainda não iniciara a sua vida pública. Isabel concebera-o em idade avançada e João, desde o seu nascimento, tinha a missão de anunciar a chegada do Salvador - de Jesus Cristo. Mas as profecias, mesmo para Herodes Antipas, eram para respeitar e João Baptista tinha o condão de o perturbar. Herodes era um homem pouco culto, medroso, ignorante, pouco mais do que um nómada, e tinha medo do profeta. O tetrarca mandou que o trouxessem à sua presença, pois queria ouvi-lo. João repetiu-lhe o que já dissera antes, que o casamento dele com a cunhada era "sacrílego" segundo as leis. E mais, disse-lhe que a repudiasse e que voltasse para a mulher legítima, que expulsara injustamente, e que, se não o fizesse, cairia a maldição sobre Israel. Herodes, sob pressão de Herodias, mandou-o encarcerar numa prisão-cisterna.
A história dos Hebreus é longa e complexa. Vaguearam pelo deserto em busca da Terra Prometida e, desde sempre, os profetas anunciaram que um dia viria um redentor. Ora, Herodes não ignorava que a religião era algo a respeitar. Vivia torturado entre o prazer e o dever. Era fraco. Não resistia às artimanhas da cunhada, agora sua mulher, que se dizia ter casado com ele apenas por interesse. Ora Herodes nada tinha que se comparasse com o pai, Herodes, "o Grande", que, na religião católica, ficou conhecido por ter ordenado a "matança dos inocentes", isto é, ter mandado executar todas as crianças com menos de dois anos, quando ouviu dizer que um novo rei viria. Esse rei era afinal e apenas "o menino de Nazaré" e o seu reino não seria deste mundo. Não há dados históricos deste facto e, em História, é preciso conhecer as várias versões.
Herodes, "o Grande", filho de Antípatro, foi desde 39 a. C. governador da Galileia e soube enten-der-se com os imperadores de Roma. César deu-lhe o governo da Galileia e durante a vigência do Imperador António (o da paixão por Cleópatra) Herodes obteve o reino da Judeia. Herodes, "o Grande" tomou Jerusalém em 37 a. C. e mandou fazer grandes obras de arquitectura sendo o palácio a obra mais importante, que demorou oito anos a construir. O seu reinado foi uma época de riqueza.
Não podemos esquecer que o cognome de "o Grande" foi usado pelos historiadores, durante séculos, para homens e mulheres que fizeram grandes conquistas e construções majestosas, não estando os atributos morais em causa. Sobre Alexandre, "o Grande", ainda hoje recaem suspeitas se terá ou não estado envolvido na morte do pai; Catarina, "a Grande" (da Rússia) mandou matar o marido, que era o legítimo herdeiro do trono. E, mesmo que Herodes, "o Grande", tivesse mandado matar milhares de crianças, é preciso não ignorarmos que, nesse tempo, imperadores, reis e grandes senhores tinham poder de vida e de morte sobre a família e súbditos. Mas regressemos à bela Salomé. Herodes Antipas quis esquecer que as palavras de João o torturavam e não o deixavam dormir. Era o seu aniversário e quis festejá-Io com toda a pompa. Os seus territórios eram vastos, chegavam bem para lá do rio Jordão e a festa deveria ser falada por toda a parte. Foram convidados todos os príncipes, que acorreram da Judeia e da Galileia e trouxeram os seus séquitos. Bailarinas de longes paragens vieram com a sua graça animar o banquete. Foram preparadas as melhores iguarias.
Entre cada prato servido, tocava-se música e as bailarinas núbias e egípcias, ao som de alaúdes e flautas esvoaçavam entre os convivas. Os vinhos de Chipre e da Grécia enchiam taças de metais preciosos e reinava a alegria. Na sala do banquete só era permitida a entrada a elementos do sexo masculino. Bailarinas e escravas, não eram consideradas pessoas. Estavam ali para o prazer dos convidados. Era o costume do tempo.
De repente, reza a lenda, a orquestra faz silêncio e, para surpresa de todos, aparece uma bailarina desconhecida acompanhada de escravas. Todos esquecem a refeição e não tiram os olhos daquela beleza sem rival - era Salomé. Ela vai dançar. As escravas passam-lhe pelo corpo perfumes, sândalo e outras essências. Colocam-Ihe nos braços e tornozelos pulseiras. Salomé está descalça e as suas vestes são tules e finas musselines transparentes, a fazerem adivinhar um corpo perfeito... e então Salomé começa a dançar. Eugénio de Castro, no seu poema lírico, descreve-a assim:

"Radioso véu, mais leve que um perfume,
Cinge-a, deixando ver sua nudez morena,
Dos seus dedos flameja o precioso lume
E em cada mão traz uma pálida açucena.
E a infanta avança. ao som dos burcelins...
Como sonâmbula perdida
Em encantos, místicos jardins,
Dir-se-ia que dança desmaiando
Ao perfume das flores que estão em roda...
Dir-se-ia que dança e está sonhando...
Dir-se-ia que a estão beijando toda..." 

Salomé termina a dança. Os aplausos são entusiastas. Os convidados de Herodes querem mais. E Herodes, louco de desejo, pede: "Salomé, dança mais uma vez!" Ela recusa, esquiva, mas de novo o tetrarca seu tio insiste: "Dança para mim outra vez! Se o fizeres, pede-me o que quiseres que te darei, nem que seja metade dos meus reinos. Tudo será teu!" Salomé hesita, mas depois, num relance, percebe que tem, naquele momento um poder imenso e vai usá-lo. Como? Caprichosa, e sem pestanejar, como quem tira um fruto maduro de uma taça, diz: "Quero a cabeça de João Baptista numa bandeja de prata." Herodes Antlpas fica branco, quase petrificado, não acredita no que ouve e diz-lhe para escolher algo diferente. Que peça jóias, tecidos caros mandados vir de longínquas paragens, os luxos mais inatingíveis, mas a cabeça do profeta não. Herodes tem medo, não é a bondade que o faz agir assim, ou talvez, lá no fundo, pense que aquele homem não merece a morte, porque não é um criminoso, não atentou contra a vida de ninguém, embora nesse tempo mandar matar fosse quase uma banalidade.
Imperturbável, Salomé repete, sem hesitar: "Danço outra vez para ti, se me trouxerem a cabeça de João Baptista." E Herodes cede. Tem de cumprir a palavra dada perante tantas testemunhas e manda que as suas ordens se cumpram. Entrega ao chefe da guarda pessoal o seu anel, para que este o mostre ao carrasco e para que este execute, sem demora, a sentença. A prisão onde estava João Baptista distava ainda alguns quilómetros do palácio. Terá havido um silêncio arrepiante? Ou a música e o festim prosseguiram?
Um pouco mais tarde, a cabeça de João Baptista é trazida à presença de Salomé. Esta olha-a, ainda ensanguentada. A partir daquele momento, João Baptista é um mártir, é o santo que tantos séculos depois a humanidade não esqueceu. É evocado no dia do seu nascimento - 24 de Junho -, mas, em alguns locais, também se comemora a sua memória a 29 de Agosto, dia em que foi degolado. Desde logo, S. João foi respeitado e o imperador Constantino mandou edificar a basílica de São João de Latrão. Roma possui mais de 20 igrejas consagradas ao santo degolado por ordem de uma mulher.
Quanto a Salomé, tudo o mais é lenda. Há várias versões para o fim que teve Salomé. Temos de voltar à fantasia de quem a pintou e de quem sobre ela escreveu páginas de literatura. Para Oscar Wilde (1854-1900), o autor da mais famosa peça sobre Salomé, escrita para o teatro e para a actriz francesa Sarah Bernhardt, Salomé é a encarnação da perfídia, porque ela amara João, que a não desejou, por isso ela agiu por vingança. Quando lhe trouxeram a cabeça do mártir ela beija-o na boca, desesperada. A peça é tão impressionante e tão contra os cânones da época que foi proibida em Inglaterra, na Áustria, na Suécia e noutros países. Só em França foi representada, com sucesso, em 1896.
Depois da peça de Oscar Wilde, Richard Strauss fez a música da ópera do drama de Salomé e João Baptista. Houve quem compusesse bailados sobre o tema, mas é na iconografia sobre Salomé que encontramos o maior e mais diversificado número de interpretações: gravuras, desenhos, telas de pequenas e grandes dimensões, esculturas. Quase todos os grandes museus do mundo têm quadros com João Baptista e Salomé, Há representações remotas, sendo conhecidas obras de toda a Idade Média. De referir, em particular, um belíssimo quadro de Filippo Lippi (1406-1469), uma gravura de 1583 da Bíblia Sacra de Antuérpia e outra, também de Antuérpia, de 1715. Portugal tem no Museu de Arte Antiga quadros sobre o tema e o museu de Tomar alberga, da Escola de Gregório Lopes, do século XVI, um exemplar belíssimo sobre o tema da mulher má e do santo degolado.
Leonardo da Vinci, Ticiano, Caravaggio, Bernardo Luini, Veronese, Pedrini, Rembrandt, Regnault, Eduardo Toudouze, Max Slevogt, Hugo von Habermann, Delacroix, Otto Friedrich, Klimt, Lovis Corinth, Fritz Erler, Juana Romani e Ella Ferris Pell são alguns artistas que se deixaram seduzir por Salomé. Até Picasso e Dali não resistiram ao seu erotismo. Uns vêem uma Salomé sanguinária, a completa encarnação da maldade, outros uma Salomé ingénua, que terá apenas obedecido à mãe, que lhe sugere o tenebroso pedido. Fosse como fosse, nenhuma mulher foi ou será considerada tão pérfida como Salomé. O grande, o maior pintor de Salomé foi Gustavo Moreau, que, entre esboços, desenhos e telas, terá dado vida a uma única Salomé em mais de uma centena de versões.
Talvez Salomé jamais mereça perdão, não só por ter mandado executar um homem bom, de nome João Baptista, mas porque continua a seduzir-nos por detrás daqueles olhos belos e provocantes, quando a olhamos, bem de frente, nos museus de todo o Mundo.

Informação retirada daqui

domingo, 5 de março de 2017

Santa Clara

Nasceu em 1194 (ou 1193) numa família nobre e rica, na cidade de Assis. Foi uma jovem alta e loira de grande beleza que esteve prometida em casamento a grandes senhores feudais. A sua recusa ao casamento inseriu-se na “profunda inquietação religiosa” que muitos homens e mulheres sentiram nos séculos XII e XIII e que os levou ao retorno a uma vida ascética e desprovida de bens materiais. Clara era de uma grande exigência para consigo própria. A opção pela mais absoluta pobreza, para melhor viver o cristianismo, faz dela uma mulher admirável para os parâmetros da sua época e para a eternidade. 

No oitavo centenário do seu nascimento, Assis, a cidade símbolo mundial do espírito cristão da pobreza e da paz, comemorou, desde 11 de Agosto de 1993 até 5 de Outubro do 1994, o seu nascimento. Em Portugal, o Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro assinalou esta data com uma pequena mas belíssima exposição biblio-iconográfica.
Clara era neta e filha de fidalgos guerreiros das mais ilustres e poderosas famílias de Assis. Viviam num palácio na cidade, possuíam um castelo nos arredores e consideráveis propriedades. 

O pai, Favarone Scifi, era conde e como todos os cavaleiros feudais deixava a educação das filhas a cargo de sua mulher e das numerosas damas do palácio. Como guerreiro cabia-lhe também participar nas cruzadas contra os infiéis, mas a sua religiosidade não iria muito além destas belicosas investidas. O avô de Clara pertencia à nobre família dos Offreducci. Seu filho mais velho, Monaldo, tio de Clara, era um guerreiro brutal e sem escrúpulos, mas na família havia outros parentes cuja generosidade aquela menina loira e sensível iria imitar.  Ortolana Fiuni, antes mesmo da sua filha Clara nascer, pediu autorização ao marido para fazer uma peregrinação à Terra Santa, facto que era comum na época, principalmente na nobreza. 

Foi acompanhada da sua grande amiga, Pacífica de Guelfuccio, e integradas num grupo maior de peregrinos. Só a muita fé fazia esquecer a travessia do mar em más condições, as caminhadas longas sob diversos perigos, o calor, a escassez de água e alimentos. Toda a adversidade era compensada pelo momento inesquecível da chegada a Jerusalém, e o privilégio de poderem ajoelhar-se perante o Santo Sepulcro. Nessa viagem, Ortolana irá também a Roma. Após o regresso a casa, sabe que vai ser mãe. A lenda diz que a mão de Clara de Assis ouviu um dia vozes que lhe anunciam que a criança que ia nascer iria ser um clarão de luz para todo o mundo.  Em Roma era papa Celestino III. Corria o ano de 1194.

Clara é baptizada na mesma igreja onde, doze anos antes, recebera o baptismo Francisco de Assis (teve na pia baptismal o nome de João). As suas vidas vão para sempre estar ligadas por uma grande amizade espiritual. Mas se São Francisco, o santo padroeiro dos ecologistas que tratava os animais e as plantas por “irmãos” e “irmãs” e por quem os adultos e as crianças têm uma ternura muito especial, continua, decorridos tantos séculos, a ser conhecido e venerado, o mesmo não se passou com Clara que é pouco conhecida fora de Itália. Ela foi, porém, a feição feminina do franciscanismo na sua mais absoluta pobreza. Foi a fundadora das Clarissas, que se estenderam rapidamente por todo o mundo. Portugal teria o seu primeiro convento de Clarissas, em Lamego, antes de 1260. 
             
Os franciscanos e as clarissas vão operar uma profunda reforma nos costumes do seu tem po, numa recristianização da sociedade. A espiritualidade franciscana apontava para uma vida de despojamento de bens materiais e uma verdadeira recusa à subserviência ao dinheiro e ao luxo. Para Francisco de Assis a santificação pessoal era uma obra colectiva, numa união estreita com os outros, fazendo da divulgação da palavra de Cristo uma componente essencial dessa espiritualidade.   Regressemos ao século XlI e a essa bela cidade situada no cimo de uma montanha — Assis. 
             
Clara foi a mais velha de cinco ir mãos — Inês, Beatriz e dois irmãos. A sua infância e juventude foi a de uma menina fidalga. Gostou de vestidos de seda bordados, usou muitas vezes jóias quando com a família ia às festas da sua cidade ou assistia aos torneios onde a destreza dos irmãos e amigos era certamente para ela um motivo de aplauso. Aos doze anos era considerada de uma beleza fora do vulgar e os seus dotes artísticos eram o orgulho da mãe e do pai. Este, achou que era chegada a idade de a casar, mas Clara foi dizendo que não estava preparada.Nesse tempo nem a própria mãe, profundamente religiosa, poderia adivinhar o futuro daquela filha que viria influenciar toda a família. 
             
Clara teria pouco mais de treze anos quando Francisco, filho de Pedro Bernardone, o rico fabricante e mercador de tecidos: resolveu tomar atitudes “bizarras”, começando por dar os seu ricos fatos e o seu cavalo a um pobre e depois desaparecendo de casa para se refugiar numa ermida abandonada a um quilómetro da cidade, recolhido em oração. Não se falava de outra coisa em Assis depois de Francisco ter roubado peças de tecido ao pai que vendeu para com o dinheiro reconstruir a capela de São Damião. Mais tarde a sua comunidade muda-se para Santa Maria dos Anjos. Francisco contava vinte e cinco anos. Passara já pelos prazeres dos jovens da sua idade, amante de mulheres, festas e folguedos, fora guerreiro, enfim, podemos dizer que a sua decisão nada tinha de imaturo, mas a sociedade em que vivia não o podia entender, O pai, tomando-o por louco, vai prendê-lo em casa e pô-lo a pão e água. 
             
Mas o tempo viria provar que aquele homem tinha sido tocado por algo transcendente e que iria seguir uma vida diferente. Com o tempo, outros jovens ricos vão juntar-se a Francisco e formarão uma nova comunidade religiosa a quem o papa Inocêncio III, em 1209, vai autorizar a pregação, como se fossem sacerdotes ordenados, embora, de início, a Igreja não entendesse muito bem o que pretendiam estes novos monges, que receberam sempre grande apoio dos beneditinos. Durante um ano, Clara vai à Capela de Santa Maria dos Ajos ouvir a pregação de Francisco e conversa com ele. Vai vestida de maneira discreta, sobre a cabeça põe um manto pesado para não ser reconhecida e faz-se acompanhar de uma amiga de confiança. 

Clara não mais vai esquecer essas conversas nem a forma humilde como ele se vestia - descalço, uma túnica de pano grosseiro, apanhada na cintura com uma corda e um cajado encimado de uma cruz e aquele olhar sereno e feliz. Aquela felicidade que só alguns conseguem atingir.
Durante quatro anos, silenciosamente, sem mesmo dizer à mãe o que se passava no seu pensamento, Clara vai meditar na sua vida. Aos dezoito, no dia 18 de Maio de 1212, sai de noite de casa, acompanhada da amiga fiel, Filipa de Guelfuccio, descem a encosta até à Porciúncula onde Francisco, outros frades e freiras de outros mosteiros as esperam. Leva por baixo do manto um vestido de noiva, adornada com jóias: é o costume que ainda hoje se mantém nas tomadas de hábito das freiras que depois despem as vestes da “riqueza mundana” para envergarem o hábito da pobreza. Neste caso a verdadeira pobreza franciscana — o véu branco da pureza e o negro símbolo da penitência. 
             
Na cerimónia de profissão de fé de Clara, no mosteiro de Francisco, é e!e próprio quem lhe vai cortar os cabelos. Diz-se que ao ver cair aqueles fios doirados no chão, o santo terá deixado rolar uma lágrima. A família, ao dar pelo desaparecimento de Clara, desencadeia as buscas, tendo à frente o tio de Clara. Pensa-se primeiro num rapto da autoria de algum jovem, o que era vulgar na época (eram chamados os “casamentos por rapto”) mas depois descobre-se que ela se recolhera junto da comunidade de Francisco. O tio Monaldo diz que a culpa é desse “doido” e jura que a trará para casa. Mas quando chega ao mosteiro das beneditinas de S.Paulo, em Bastia, próximo de Assis, onde Clara se recolhera, vê a sobrinha descalça, vestida pobremente que com serenidade e segurança lhe diz que não mais voltará para casa dos pais, porque é aquela a vida que escolheu. Fica indeciso. Ainda tenta forçá-la a segui-lo. Porém, Clara — para que ele perceba que a sua opção não foi um impulso passageiro tira o véu e mostra-lhe a cabeça rapada. O tio solta um grito de raiva. Aqueles cabelos de oiro, elogiados por toda a cidade, já não cobriam a bela cabeça da sobrinha e, meio descontrolado, retira-se com os seus soldados. Como a família de Francisco, também a de Clara teve de encarar a escolha da filha como algo mais forte que os poderes terrenos. 
             
Ortolana, ao princípo, não percebe bem o alcance do gesto da filha porque pensa que ela poderia ter escolhido ser freira num convento rico, para onde iam tantas meninas da nobreza.  Inês, irmã de Clara, quinze dias de pois fará o mesmo e a própria mãe, mais tarde, já viúva, vai também entrar num convento.Um dia, Frederico II, com o seu exército composto por sarracenos, desde que fizera uma aliança com o sultão do Egipto, aproxima-se do convento de S. Damião. Na sua fúria contra a Igreja católica, tenta penetrar no mosteiro onde se encontra Clara e a sua comunidade. Quando os soldados que tentavam o saque se aproximam, as freiras em pânico vão avisar Clara que, sem ter qualquer meio de defesa, vai à capela e pega na custódia, peça do culto onde se coloca a hóstia, normalmente de ouro ou pra ta, e empunhando-a com as duas mãos levanta-a de modo a que seja vista pelos invasores. Conta a lenda que os raios de Sol, reflectindo-se nela, teriam assustado os guerreiros que, em debandada, fugiram. Será esta a cena mais representada nas gravuras e pinturas que se têm feito de Santa Clara, sendo de referir que Portugal possui inúmeros quadros desta Santa, nomeadamente no mosteiro da Madre de Deus, em Xabregas. 

A exigência espiritual de Clara de Assis diferenciava-se das outras comunidades de freiras, principalmente num aspecto — além de ser uma ordem contemplativa, vive o “privilégio da pobreza”. Esta recusa total dos bens terrenos era perfeitamente inaceitável na época e, daí, Clara ter toda a vida lutado para que a sua Regra fosse aceite pelo Papa que a considerava de uma tal exigência que seria difícil de cumprir. Gregório IX confirmará a nova ordem monástica, em 1228. É difícil, nos nossos dias, compreendermos o que é este espírito de pobreza de Francisco e Clara. Seria preciso penetrarmos na mentalidade da época, onde a pobreza era una humilhação, mais do que uma ausência de bens. Os pobres eram, de algum modo, marginais que viviam da bondade de quem lhes dava esmola. 
             
Hoje, fala-se de outra pobreza que é o fruto de calamidades naturais e da responsabilidade dos governos de países, exclusivamente preocupados com o progresso material, como se o ser humano só precisasse de bens palpáveis. Clara de Assis, na sua pequena comunidade com as outras “senhoras pobres”, como se chamaram de início as Clarissas, vai aceitar, apesar de uma primeira recusa, ser a abadessa, sempre como apoio espiritual da comunidade de Francisco. Vão instalar-se num mosteiro beneditino de Sant’Angelo de Ponzo. Inês, que também vai seguir a vida monástica, irá para outro convento e as duas irmãs ficarão trinta e cinco anos sem se encontrar. 
             
Francisco de Assis, já por muitos considerado um santo, morre em 3 de Outubro de 1226. O povo de Assis vai--lhe prestar uma homenagem simples e sentida. Cada habitante da cidade levou na mão um raminho de fores e uma vela acesa. O cortejo fúnebre sai de Santa Maria dos Anjos e, antes de chegar a Assis, vai passar em S. Damião para que Clara, muito doente, possa dizer o último adeus ao seu guia espiritual, ao seu grande amigo e protector. Clara chorou sem cessar a perda de Francisco. Sentia-se desamparada. Tinha 32 anos e iria viver até aos 60 sempre em S. Damião. 
             
Entretanto, a fama de Clara espalhava-se, gente dos arredores vinha pedir-lhe conselhos e ela, através da oração, fazia curas ditas milagrosas. Surdos que passaram a ouvir, mulheres estéreis que tiveram filhos e muitos outros factos fora do vulgar. 
Clara de Assis foi canonizada em 1255, apenas dois anos após a sua morte. Poderíamos chamar-lhe a santa das santas”. 

Informação retirada daqui

quinta-feira, 2 de março de 2017

Santo António

Lisboa está cheia de testemunhos de Santo António – o seu santo mais querido e popular. Os museus e bibliotecas portuguesas possuem quase tudo o que um erudito pode querer saber sobre este português fora do vulgar, que viveu nos primórdios da nacionalidade. Porém para a maioria dos lisboetas que não vão às bibliotecas e raramente aos museus, o dia 13 de Junho não passa de um agradável feriado em honra de Santo António, onde se aproveita para ir comer caldo verde e sardinhas assadas, de preferência junto aos bairros da Sé e ver as marchas populares.
As crianças já não pedem umas moedas para enfeitar o trono do Santo e as meninas solteiras provavelmente já não lhe pedem um namorado. Tanta popularidade, mais de oitocentos anos depois do seu nascimento, leva-nos a recordar aspectos da vida deste santo, passada entre Lisboa, Coimbra e Pádua.

Desde 1140 que D. Afonso Henriques, o nosso primeiro rei, tentava a conquista de Lisboa aos Mouros, feito que só teve êxito sete anos depois, em 1147, depois de prolongado cerco imposto aos aguerridos Almóadas e com o oportuno apoio dos Cruzados, em número treze mil (grande exército de homens cristãos que vieram do Norte da Europa, rumo à Terra Santa, para expulsarem os Muçulmanos. Usavam uma cruz de pano como insígnia, daí o seu nome. Houve oito Cruzadas desde 1096 a 1270).
Lisboa era pois uma cidade recém-cristã, quando na sua catedral foi a baptizar o menino Fernando Martins de Bulhões – Santo António, filho da fidalga D. Teresa Tavera, descendente de Fruela, rei das Astúrias e de seu marido Martinho ou Martins de Bulhões. Há dúvidas quanto ao apelido do pai, bem como se era ou não descendentes de cavaleiros celtas. Sabe-se sim que D. Teresa nascera em Castelo de Paiva e o marido numa terra próxima. Viviam em casa própria no bairro da Sé quando o recém-nascido veio a este mundo, no ano de 1145, embora alguns apontem como data de nascimento 1190 ou 1191.
Fernando frequentou a escola da Sé e até aos 15 anos viveu com os pais e com uma irmã de nome Maria. Aos 20 anos professou nos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho em Lisboa, no Mosteiro de São Vicente de Fora. Nesta ordem monástica prosseguirá os seus estudos teológicos.
Rumou a Coimbra ao mosteiro de Santa Cruz, onde tinha à sua disposição a melhor biblioteca monacal do País. Nesse tempo era a abadia de Cluny, em França, que possuía uma das maiores bibliotecas da Europa, com um total de 570 volumes manuscritos, porque ainda não tinha sido inventada a imprensa. Aqui em Coimbra, sendo já sacerdote toma o hábito de franciscano, em 1220. Segundo os seus biógrafos, Santo António terá lido muito, e não foi por acaso que se tornaria pregador.
O mundo cristão vivia intensamente a época das Cruzadas. A chamada «guerra santa» desencadeada contra o Islão. E da parte dos Muçulmanos dava-se a inversa, luta contra os cristãos. Ambos acreditavam que a fé os levaria à vitória. De Oriente a Ocidente os exércitos batalham, e neste turbilhão surgem novas formas de espiritualidade. Em 1209 Francisco de Assis (S. Francisco) abandona o conforto e luxo da casa paterna, para, com outros companheiros, se recolher numa pequena comunidade, dando origem a uma nova reflexão sobre a vivência do Evangelho. É a aproximação à Natureza, à vida simples e à redescoberta da dignidade da pobreza preconizada pelos primeiros cristãos. Em poucos anos, homens e mulheres, alguns ainda bem jovens e filhos de famílias abastadas e poderosas sentem-se atraídos por esta vida de despojamento e sacrifício, com os olhos postos no exemplo de Cristo. A Portugal também chegaram ecos deste novo misticismo.
Em Janeiro de 1220 são degolados em Marrocos, pelos muçulmanos, cindo frades menores (franciscanos) e todo o mundo cristão sofre um enorme abalado. A própria Clara de Assis (Santa Clara), praticamente da mesma idade que Santo António (nasceu em 1193 ou 1194) vai querer partir para Marrocos para converter os sarracenos, mas Francisco de Assis seu amigo de infância e seu orientador espiritual não lho permite.
Por cá o nosso futuro Santo António, já ordenado padre, decide mudar de Ordem religiosa e também ele passa a envergar o hábito dos franciscanos. È nesta ocasião que muda o nome de baptismo de Fernando para António e vai viver com outros frades no ermitério de Santo Antão (ou António) dos Olivais, na altura um pouco afastado de Coimbra, nuns terrenos doados por D. Urraca, mulher do rei D. Afonso II.
Em meados de 1220 chegam, com grande pompa religiosa, ao convento de Santa Cruz de Coimbra, as relíquias dos mártires de Marrocos e esse acontecimento vai ser decisivo no rumo da vida de Santo António. Parte para Marrocos, sentindo também ele que é chamado a participar na conversão dos chamados infiéis. Porém adoece gravemente e não podendo cumprir aquilo a que se propunha, teve de embarcar de regresso a Lisboa. Só que o barco é apanhado numa tempestade e o Santo vê o seu itinerário alterado ao sabor de uma vontade superior. Acaba por aportar à Sicília num período de grandes conflitos armados entre o Papa Gregório IX e o rei da Sicília, Frederico II. Relembra-se que várias regiões do que é hoje a Itália unificada eram reinos independentes e este ambiente de guerras geradoras de insegurança e perigos.
Em Maio de 1221 os franciscanos vão reunir-se no chamado Capítulo Geral da Ordem, onde Santo António está presente. No final os frades regressam às suas comunidades de Montepaolo, perto de Bolonha, onde, a par da vida contemplativa e de oração, cabe também tratarem das tarefas domésticas do convento. Aqui os outros frades reparam na grande modéstia daquele estrangeiro (Santo António) e jamais suspeitaram dos seus profundos conhecimentos teológicos. Findo aquele período de reflexão, como que um noviciado, os frades franciscanos são chamados à cidade de Forlì para serem ordenados e Santo António é escolhido para fazer a conferência espiritual. E começa a falar. Ninguém até ali percebera até que ponto ele era conhecedor das Escrituras e como a sua fé e os seus dotes oratórios eram invulgares.
Pelo que se sabe quando começou a falar imediatamente cativou os outros frades e a sua vida seria a partir daquele dia de pragador da palavra de Cristo. Percorrerá diversas regiões da actual Itália, entre 1223 e 1225. Por sugestão do próprio São Francisco vai ser mestre de Teologia em Bolonha, Montpelier e Toulouse.
Quando S. Francisco morre, em 1226, Santo António vai viver para Pádua. Aqui vai começar por fazer sermões dominicais, mas as suas palavras tão cheias de alegorias eram de tal modo acessíveis ao povo mais ou menos crente, que passam palavra e casa vez mais se junta gente nas igrejas para o ouvir. Da igreja passa para os adros para conter as multidões que não param de engrossar. Dos adros passa a falar em campo aberto e é escutado por mais de 30 mil pessoas. É um caso raro de popularidade. A multidão segue-o e começa a fama de que faz milagres. Os rapazes de Pádua têm mesmo que fazer de guarda-costas do Santo português tal a multidão à sua volta. As mulheres tentam aproximar-se dele para cortarem uma pontinha do seu hábito de frade como uma relíquia.
O bispo de Óstia, mais tarde papa com o nome de Alexandre IV, pede-lhe que escreva sermões para os dias das principais festas religiosas que eram já muitas na época. Mais tarde seria este papa a canonizá-lo. Santo António assim faz. São hoje importantíssimos esses documentos escritos, porque Santo António com pregador escreveu pouco. Apenas lhe são atribuídos Sermones per Annum Dominicales (1227-1228) e In Festivitatibus Sanctorum Sermones (1230) .
Sentindo-se doente, o santo pediu que o levassem para Pádua onde queria morrer, mas foi na trajectória, num pequeno convento de Clarissas, em Arcela, que Santo António «emigrou felizmente para as mansões dos espíritos celestes». Era o dia 13 de Junho de 1231.
Depois, como é sabido, foi canonizado, em 1232, ainda se não completara um ano sobre a sua morte. Caso único na história da Igreja Católica. Já que nem São Francisco de Assis teve tal privilégio.
Os santos como Santo António, há muito que desceram dos altares para conviverem connosco, os simples mortais, que tomamos como nosso protector e amigo. O seu sumptuoso sepulcro, em mármore verde em Pádua, na igreja de Santo António é o tributo do povo que o amou e é muito mais do que um lugar de peregrinação e de oração. Através dos séculos, a sua fama espalhou-se por todos os continentes. No dia 13 de Junho de cada ano, Lisboa e Pádua comemoram igualmente a passagem por este mundo de um português que pregou a fé e morreu em Pádua. Como todos os santos é universal. 

Informação retirada daqui
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